quinta-feira, 1 de abril de 2010

Procissão do Fogaréu

Sobre as pedras e os becos da cidade histórica de Goiás, conhecida como Goiás Velho, cerca de 15 mil pessoas acompanharam a procissão do Fogaréu. O ritual, sempre a meia noite da quarta-feira da Semana Santa, resgata as tradições do século 18 e representa a perseguição dos soldados romanos a Jesus na antiga Jerusalém.

A tradição no município de Goiás Velho tem cerca de 138 anos. Os 40 farricocos, personagens centrais da encenação, saem descalços, com vestimentas de seda coloridas, inspiradas nas procissões da Espanha e de Portugal dos séculos 17 e 18. Com as luzes apagadas, somente as tochas carregadas por eles e por 300 fiéis, iluminam as ruas durante o percurso.

O fotógrafo Eraldo Peres acompanhou a procissão e mostra em cores, a fé e a cultura do povo brasileiro. Clique na imagem para ver a fotos.

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Os encantos de Dona Onete no encontro "Vozes de Mestres"


Yorranna Oliveira / Fotos: Carol Peres / Folia Cultural

Ela entra calçada e logo se desfaz das sandálias. “Porque carimbó se dança descalço”, explica. E assim toda brejeira, Dona Onete começa o show, muito bem acompanhada pelos percusionistas do Trio Manari. 


É noite de cultura popular no Centro de Convenções e Feiras da Amazônia, o Hangar. Dona Onete e Trio abrem o primeiro dia do “Vozes de Mestres - Festival Internacional de Cultura Popular”, que passa por Belém entre os dias 24 e 29 de novembro com oficinas, debates, exposição, cinema e teatro.


Toda faceira e cheia de charme, Dona Onete ia seduzindo a platéia, com o seu carimbó brejeiro como gosta de chamar. “É o carimbó da água doce”, diz.O público devidamente comportado em suas cadeiras, não fica muito tempo quieto no lugar. Os batuques e a cantoria de nossa Mestre de Cultura Popular contagiam pernas e braços, e quase todo mundo se remexe nas cadeiras, cantando e batendo palmas e alguns não resistem e se levantam para dançar. O auditório estava tomado, tinha até gente em pé. Cultura popular é do povo, faltava mais povo no Hangar. Trancada num espaço fechado, parecia quase sufocar. Dona Onete deveria estar ao ar livre, sem as cadeiras amarrando pessoas para sentar. No entanto, isso não tirou a diversão da festa. Festa legitimamente brasileira, onde diversão e cultura cruzam os mesmos caminhos.


Entre um hit e outro, nossa Mestre Popular conversava com o público e contava suas histórias e não poderia deixar de agradecera honraria ao ser classificada como Mestre. “Eu senti o povo do Pará junto comigo. A gente desarruma uma cultura e depois arruma”, dizia sorrindo. E entoava uma canção. O resultado só dava bailados, cantoria e aplausos: “Parece que o show tá agradando, né?!”, conluia.



“Vou descansar um pouco, porque 70 anos não é 70 dias”, justificava Dona Onete, enquanto sentava na cadeira. Nem precisava. Se quisesse, podia até cantar deitada. Ela, sim, pode. E assim, foi contar a história do “Chá de Tamaquaré”. O público se deliciando. “Vocês gostaram né?! Amanhã já tem gente lá no Ver-o-Peso”, brincava.


Uma hora durou a brejeirice de Dona Onete, com direito a homenagem a Mestre Verequete, por quem nossa querida vovó teve a honra de ser julgada, como ela faz questão de dizer. “Ele disse: ‘até que tu cantas bem’. E eu gostei”, lembrou.


Os tambores, batuques e experimentações sonoras do Trio Manari se destacam na homenagem. O público se inclina todinho para ver. Querem chegar bem perto, se possível tocar, mesmo que seja  apenas com o olhar. “Esse é o nosso tambor. E ele também é do Pará. Gente, e eu que pensei ter visto de tudo de batuque”, contava Dona Onete, impressionada com os rapazes do Manari.
E já que na lateral direita dos espaços, havia gente caindo no carimbó, uma cumbia para encerrar a festa. “Cumbia maravilhosa como as coisas do nosso Pará”. Os casais se formaram rapidinho para dançar. O público queria mais. Ainda bem que em seguida vinha o Naná e ninguém ficaria frustrado. “Beijos, beijos, beijos e saudações paraenses”, despediu-se dona Onete, paraoara com muito orgulho.

domingo, 22 de novembro de 2009

Caminhada pela Consciência Negra no Brasil


Por Carol Peres / Fotos: Eraldo Peres

O Dia da Consciência Negra, comemorado no dia 20 de novembro, teve grande repercurssão no país, com manifestações, passeatas, seminários e eventos culturais, onde a voz negra falou mais alto. A data, que remete-nos a Zumbi dos Palmares, o maior ícone da resistência negra ao escravismo no Brasil, é dedicada à reflexão sobre a inserção do negro na sociedade brasileira.

20 de novembro coincide também com o dia da morte de Zumbi dos Palmares, em 1695. Apesar das várias dúvidas levantadas quanto ao caráter de Zumbi nos últimos anos (comprovou-se, por exemplo, que ele mantinha escravos particulares) o Dia da Consciência Negra procura ser uma data para se lembrar a resistência do negro à escravidão de forma geral, desde o primeiro transporte forçado de africanos para o solo brasileiro.

Estivemos em Salvador, a cidade com maior população negra do país. Vários movimentos da comunidade negra realizaram passeatas e caminhadas de conscientização e memória da luta contra a escravidão no Brasil.


O Dia da consciência negra
A lei 10.639, de 9 de janeiro de 2003, incluiu o dia 20 de novembro no calendário escolar, data em que comemoramos o Dia Nacional da Consciência Negra. A mesma lei também tornou obrigatório o ensino sobre História e Cultura Afro-Brasileira. Nas escolas as aulas sobre os temas: História da África e dos africanos, luta dos negros no Brasil, cultura negra brasileira e o negro na formação da sociedade nacional, propiciarão o resgate das contribuições dos povos negros nas áreas social, econômica e política ao longo da história do país. Fonte: http://www.brasilescola.com/

A data foi escolhida por ser referência para o movimento em contraposição ao 13 de maio, quando foi decretada a abolição da escravatura, a chamada Lei Áurea, pela princesa Isabel, em 1888. O 13 de maio expressa, então, a celebração da generosidade de uma branca em relação aos negros, em vez de enfatizar a própria luta dos negros por sua libertação.



Zumbi

Zumbi foi o grande líder do quilombo dos Palmares, respeitado herói da resistência anti-escravagista. Pesquisas e estudos indicam que nasceu em 1655, sendo descendente de guerreiros angolanos. Em um dos povoados do quilombo, foi capturado quando garoto por soldados e entregue ao padre Antonio Melo, de Porto Calvo. Criado e educado por este padre, o futuro líder do Quilombo dos Palmares já tinha apreciável noção de Português e Latim aos 12 anos de idade, sendo batizado com o nome de Francisco. Padre Antônio Melo escreveu várias cartas a um amigo, exaltando a inteligência de Zumbi (Francisco). Em 1670, com quinze anos, Zumbi fugiu e voltou para o Quilombo. Tornou-se um dos líderes mais famosos de Palmares. “Zumbi” significa: a força do espírito presente. Baluarte da luta negra contra a escravidão, Zumbi foi o último chefe do Quilombo dos Palmares

Veja também
* Fundação Cultural Palmares

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

As últimas homenagens a Mestre Verequete

Carol Peres
Folia Cultural
  
Chama Verequete, ê, ê, ê,
Chama Verequete, ô,ô,ô,ô
Chama Verequete, ruuum
Chama Verequete, Oh! Verê
Oi chama Verequete, Oh! Verê

Os tambores e curimbós soam mais tristes em Belém. As saias já não rodam tanto. O pés estão parados e a voz do grande mestre vai ficar na memória de todos. Assim como a letra da música onde o carimbó nunca morre, ele canta pela última vez mas vai se eternizar na cultura popular.

No inicio da tarde de ontem, terça-feira (3), foi anunciada a morte de Augusto Gomes Rodrigues, o Mestre Verequete. Aos 93 anos e internado há seis dias, o último boletim médico divulgado pelo hospital informava que o quadro de Verequete tinha evoluído de uma pneumonia grave e insuficiência respiratória aguda para uma infecção generalizada.

Durante toda a madrugada, no Theatro da Paz, Verequete recebeu suas últimas homenagens de famíliares, fãs e seguidores do mestre do carimbó. O enterro está programado para hoje às 16h, no cemitério Parque das Palmeiras.

Mestre Verequete fez história e ajudou a concretizar o carimbó como cultura paraense, chegou a gravar 10 discos e quatro CDs em sua carreira. E este ano foi homenageado pela Secretaria de Cultura do Pará, que deu na edição de 2009 deo Prêmio de Cultura Popular, o nome Edição Mestre Verequete.

"O Carimbó não morreu.
Está de volta outra vez.
O carimbó nunca morre.
Quem canta o carimbó sou eu"


História
Verequete, nasceu na localidade de Careca, próximo à Vila de Quatipuru, em Bragança, no dia 26 de agosto de 1916. Aos três anos, após perder a mãe, mudou-se com o pai para Ourém, onde iniciou sua trajetória artística, no terreiro da negra "Piticó".Cantor e compositor de carimbó, Verequete foi um dos primeiros divulgadores do ritmo nos subúrbios de Belém. Organizou o conjunto "O Uirapuru", em Icoaraci, e gravou seu primeiro disco em 1970, reunindo uma série de temas de carimbó.

Leia mais
Imagens da vida de Mestre Verequete
Ao mestre de músicas eternizadas nos paraenses

terça-feira, 3 de novembro de 2009

O Brasil perde Verequete, o mestre do carimbó


Após seis dias de internação, o músico Augusto Gomes Rodrigues, o Mestre Verequete, morreu na tarde desta terça-feira (03), no Hospital Barros Barreto. Verequete não resistiu ao quadro de pneumonia e infecção respiratória. Ele estava no Centro de Terapia Intensiva (CTI) desde domingo (01) e respirava com a ajuda de aparelhos.


Em entrevista na manhã desta terça-feira (03), a filha caçula do cantor, Lucimar Rodrigues, disse que a familia estava emocionalmente abalada, e que aguardavam a reação dele aos medicamentos, mas "os médicos dizem que não há aceitação do organismo dele aos remédios", lamentou Lucimar.

Ícone da cultura paraense, Verequete ficou famoso como compositor popular de carimbó, o ritmo afro-indígena típico do estado que ficou conhecido nacionalmente. A história de Verequete virou o documentário poético Chama Verequete, em 2002, que, no mesmo ano, conquistou Menção Honrosa, no Festival de Curitiba, e Melhor Música, no Festival de Gramado.


Com informações do Portal ORM e Ag. Pará
Foto: Eunice Pinto/Ag. Pará

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Corumbiara abre Mostra Cinema e Direitos Humanos

Por Gleidson Gomes
Guiart.com

As luzes do Cine Líbero Luxardo estão apagadas. Oitenta e seis pares de olhos e ouvidos aguardam, fora os espalhados pelas escadas. O cinema está lotado numa noite de quinta-feira. “Pensem nas crianças mudas telepáticas. Pensem nas meninas, cegas inexatas. Pensem nas mulheres rotas alteradas”, a voz de Juliana Sinimbú interrompe o burburinho e a escuridão, cantando a poesia de Vinícius de Moraes. A 4ª Mostra Cinema e Direitos Humanos na América do Sul, em Belém, começou.

“Não sou mestre de cerimônia, sou cantora”, avisa Sinimbú ao subir no palco - um foco de luz sobre ela. Com uma leitura mecânica de roteiro, a artista causa certo incômodo na plateia. Em seguida, cineastas, produtores e políticos apresentam-se, agradecem, discursam. Até que, enfim, a luz apaga-se outra vez e a tela branca ilumina-se.


A 4ª Mostra abre com o documentário “Corumbiara”, de Vincent Carelli. O filme trata do massacre indígena na gleba homônima em meados da década de 80, no estado de Rondônia, em consequência da formação de grandes latifúndios. Carelli acompanha a luta do indigenista Marcelo Santos na busca pelos sobreviventes, como forma de comprovar o massacre.

Investidas no meio da floresta, entrevistas com fazendeiros, representantes da Fundação Nacional do Índio (FUNAI), antropólogos e moradores da região permeiam o longa de aproximadamente de 117 minutos. O tempo passa rápido, mas tenso. A busca pelos índios no meio da mata lembra um suspense de Hitchcock.

O ápice do documentário é uma cena antológica, digna de ficção. A equipe formada por Carelli, Marcelo, o indigenista, e dois repórteres do jornal O Estado de São Paulo, encontra dois índios da tribo Canoê. Os canoê falam um dialeto incompreensível, repleto de gestos e sons. O diálogo torna-se impossível. Após os primeiros contatos, os índios levam a equipe até a aldeia. As imagens de Carelli vão parar na revista eletrônica global “Fantástico”.

Durante os discursos de abertura da Mostra, o representante do Ministério da Cultura ressaltou a importância do cinema e a capacidade da sétima arte em promover a transformação social. Ser tocado pelas imagens exibidas na tela, no decorrer da programação, é o primeiro passo.

Leia matéria na íntegra

A mostra vai até dia 1º de novembro. Confira a programação.

domingo, 11 de outubro de 2009

Fé, alegria e devoção no Círio de Nazaré 2009

Por Yorranna Oliveira
Folia Cultural
Fotos: Carol Peres

“Você assistiu [a novela] Caminhos das Índias?”, pergunta Laise e em seguida emenda: “A Norminha tá aí”. Na verdade era a atriz paraense Dira Paes. Dira veio acompanhar o Círio 2009, em Belém do Pará. Ao lado da mãe e do filho, ela esperava a passagem da Santa pela Casa da Linguagem, no início da Avenida Nazaré, onde seria homenageada pelos funcionários do espaço cultural com o grupo de carimbó Iaçá.

Enquanto Dira observa a procissão pelos janelões da Casa, quem estava no local pedia para tirar fotos. Solícita e com um sorriso simpático, ela ia. “Só dois minutos tá?!”, dizia, para que não esquecessem o motivo de sua presença ali. Afinal, ela queria ver a Virgem e com muito assédio ficaria quase impossível.

Lá fora, as pessoas aguardavam. A Santa se aproximava cada vez mais. A pequena Laise olhava para o amontoado de gente a se espremer nas ruas e calçadas. Queria enxergar o tio no meio do povo. “Ele está na corda pagando promessa”, conta. Laise tem apenas 12 anos. Idade suficiente para se compadecer pelos fiéis. “Eles ficam sofrendo ai, todos suados, chorando, com calor, com sede. Eu tenho pena”, comenta.

Dira Paes sobe no palco erguido na Casa da Linguagem. As pessoas caminham, olham para a atriz e sorriem. Acenam, tiram fotos, interrompem o trajeto de suas vidas por alguns instantes e seguem em direção a Basílica olhando para trás. Dira, com o filho Inácio no colo, retribui com sorrisos e acenos.

Os guardas da Santa dão pulinhos de alegria, levantam as mãos, acenam e sorriem também. Os promesseiros, que se acotovelam na corda, abrem largos sorrisos. A expressão de dor e sofrimento nos rostos de cada um se desfaz. É como se a presença dela fosse um alívio em meio às provações de suas jornadas. Dira deseja Feliz Círio a todos. Saúda a Virgem, que se aproxima. E pede um ano bom para os paraenses.


Às 10h30, a imagem de Nossa Senhora de Nazaré passa em frente ao local. Mãos se erguem. Olhos se fecham em oração. Há gente por todo canto. Gente subindo em árvores e grades em busca do melhor ângulo para ver a Berlinda (espécie de caixa, feita de vidro onde fica a Santa). As pessoas cantam, agradecem, pedem, sorriem, choram, dançam, desmaiam, socorrem.

Todos os sentimentos se misturam no Círio. Um momento de fé e devoção que se propaga pela romaria do início ao fim. Um fervor que comove qualquer pessoa, sem escolher idade, credo, cor, classe social. Você é realmente tocado pela energia que emana do povo. A imagem segue sua caminhada, recebendo novas homenagens e provocando novas emoções. Ao meio dia, ela chega ao Centro Arquitetônico de Nazaré(CAN), e cumpre seu percurso. Este ano, os paraenses almoçam mais cedo.