terça-feira, 25 de agosto de 2009

20 anos sem o "maluco beleza" Raul Seixas

O Site Folia Cultural é um espaço aberto para divulgação da cultura brasileira. Apesar de o nosso conteúdo ser especialmente voltado para as culturas populares, não ignoramos a importância de outros gêneros culturais como rock´n roll.

A convite de nossa equipe, a jovem jornalista paraense Yorranna Oliveira estreia em nosso site com um artigo sobre o nosso inesquecível Raul Seixas, que há 20 anos deixa lembranças, saudades e o indispensável "Toca Rauuuulllll".

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Por Yorranna Oliveira

“Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante, do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo”, cantava Raul Seixas. A música ecoava pela quitinete em Icoaraci, região metropolitana de Belém/PA. Gleidson estava lá, e a Metamorfose Ambulante de Raul penetrou em cheio a mente do rapaz. Ali, adolescentes se reuniam para falar sobre literatura, cinema, música, amenidades. Tudo ao som do bom e velho rock’n’roll.

Metamorfose cumpria seu papel de libertação. Porque a música é assim, ela liberta, acompanha crises existenciais. Ela explica. Salva. Resgata. Cada acorde causa uma pequena revolução e na cabeça de um adolescente, uma verdadeira transformação. Com o passar do tempo, as canções acabam fazendo parte de nossa memória emocional, nos remetendo a instantes únicos de nossas vidas.

“Me arrepio até hoje ouvindo e cantando metamorfose ambulante. A sensação é a mesma: liberdade. Liberdade para ser, sem maniqueísmos. Posso ser tudo e nada, certo e errado, bom e mau. A música tem o típico começo de néon, te causa logo um impacto”, diz o estudante Gleidson Gomes, 22 , sobre a experiência com um dos clássicos de Raul Seixas, quando tinha 18 anos.

Já se passaram 20 anos desde a morte do “maluco beleza”, em 21 de agosto de 1989, em conseqüência de uma pancreatite aguda - provocada pelo excesso de bebida. Mas não importa a época, não importa a idade, suas letras ainda causam impacto ao longo de gerações. Músicas repletas de lucidez, mas incompreendidas por um mundo que cometia e comete “a loucura de ser normal”. Um mundo que condenava Raul ao limbo dos loucos. "Eu não sou louco, é o mundo que não entende minha lucidez", respondia ele.

Louco ou lúcido, poeta, maldito, cantor, compositor, rei do rock’n’roll Brasil. Muitos são os adjetivos destinados a Raulzito, graças a suas composições e parcerias com pessoas tão loucas ou lúcidas quanto ele. Mas o fato é que Raul deixou em letra, som e verso seus pensamentos, ideologias e crenças. Foram 21 discos - fora os lançamentos póstumos -, que abalaram as estruturas da sociedade, com músicas feitas sob medida para desestabilizar a “solidez” das instituições sociais. E arrebatar à vida da juventude de qualquer geração.

Maluco Beleza, Metamorfose Ambulante, Sociedade Alternativa, Gita, Eu nasci há 10 mil anos atrás, Medo da Chuva, Tente Outra Vez e outros clássicos de Raul Seixas são apenas algumas das composições que (des)estruturam mentes por onde foram ouvidas. Em especial de jovens cheios de dúvidas e incertezas num mundo desprovido de respostas. E mesmo quando havia certezas, elas entraram em colapso.

No entanto, nem só instabilidades e crises Raul disseminou. Suas músicas também vieram acompanhadas daquela áurea redentora, feitas para salvar vidas e mostrar novos caminhos, novas possibilidades. Em uma das homenagens espalhadas pelo país ao ídolo ao longo dos anos, algumas sempre ficam marcadas e sobrevivem na memória. Em 2005, o Memorial dos Povos, no centro de Belém, estava semi-lotado. Uma banda cover tocava as principais canções do cantor. Todos os presentes tinham alguma relação com as músicas. Havia gente jovem, gente velha. Gente unida pelo mesmo sangue roqueiro. Mas uma dessas pessoas se destacava entre às demais. Ele tinha uma alegria embriagante no rosto, talvez pelos copos e copos de Cantina da Serra entornados. Era um homem na faixa dos 30 e poucos anos. Gritava, cantava com toda a força as músicas e dizia com o rosto quase em lágrimas, os braços erguidos como numa oração: “Foi com esse cara que eu aprendi o que é rock’n’roll”.

E você? O que aprendeu com Raul?

Para saber sobre a carreira, as músicas e parcerias de Raul Seixas, acesse o site do fã clube oficial - Raul Rock Club

Um comentário:

Gleyson disse...

Profundidade filosófica, como em Meu Amigo Pedro; ironia do cotidiano e do momento histórico em Eu Também Vou Reclamar; uma visão revolucionária do amor, como em A Maça... Eu poderia ficar aqui enumerando. Ele era de fato uma metamorfose ambulante...